16 de outubro de 2026

Cultura

Quilombo Ferreira Diniz é o primeiro do RJ a receber tombamento federal

Localizada na Glória, região central da capital fluminense, comunidade reúne descendentes de famílias que construíram uma história de resistência desde a década de 1950 e lutam pela preservação de seu território

Barbara Braga | 16/10/2026
Thumbnail
- Crédito: Oscar Liberal/Iphan

O Quilombo Ferreira Diniz, localizado no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, entrou para a história do patrimônio cultural brasileiro ao se tornar o primeiro quilombo do estado a receber tombamento federal pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O reconhecimento, aprovado em setembro de 2026, representa um avanço na preservação da memória da população negra e na proteção de um território cuja história atravessa gerações.

A medida chama atenção para a presença de comunidades quilombolas em áreas urbanas e para os desafios enfrentados por famílias negras na defesa de seus territórios. Em uma região valorizada da cidade, o Ferreira Diniz preserva vínculos familiares, práticas culturais e formas de convivência que fazem parte da memória negra carioca.

A decisão foi tomada durante a 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, responsável por deliberar sobre o reconhecimento de bens culturais de relevância nacional. Com o tombamento, o território passa a contar com proteção patrimonial federal, que estabelece regras para intervenções capazes de comprometer seus valores históricos e culturais.

Uma história construída por famílias negras

A trajetória do Quilombo Ferreira Diniz remonta à década de 1950, quando famílias negras passaram a construir suas vidas no território. Entre as personagens centrais dessa história está Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados em Minas Gerais, que chegou ao local com o marido, Antônio Dias Pessanha. Na mesma época, Olívia Carvalho Diniz também passou a viver na região.

Ao longo dos anos, as famílias Ferreira e Diniz estabeleceram no espaço relações de parentesco, pertencimento e convivência que contribuíram para a formação da comunidade. A história do quilombo está ligada à permanência dessas famílias e à transmissão de suas referências culturais entre diferentes gerações.

Atualmente, a comunidade reúne cerca de 70 descendentes, segundo informações divulgadas sobre o território. O reconhecimento como comunidade quilombola pela Fundação Cultural Palmares ocorreu em 2023, etapa importante para a afirmação de sua identidade e de sua trajetória histórica.

A história do Ferreira Diniz também ajuda a ampliar a compreensão sobre os quilombos no Brasil. Embora frequentemente associados a áreas rurais, esses territórios também estão presentes nas cidades e preservam formas próprias de organização, memória e resistência.

Cultura, ancestralidade e vida comunitária

No Quilombo Ferreira Diniz, a preservação da memória não está restrita às construções ou aos registros históricos. Ela também se manifesta nas práticas cotidianas, nos encontros entre moradores e nas atividades que mantêm a comunidade conectada às suas raízes.

Uma dessas referências é a Feijoada da Tia Cida, preparada às sextas-feiras por Maria Aparecida Ferreira. Além de integrar a rotina comunitária, a iniciativa contribui para a manutenção do espaço e para a continuidade das relações construídas entre as famílias.

O território também abriga atividades como rodas de capoeira, encontros culturais e futebol, que ajudam a fortalecer os laços entre moradores e a manter vivas diferentes expressões da cultura afro-brasileira. As celebrações e os encontros familiares completam esse conjunto de práticas que fazem do quilombo um espaço de convivência e transmissão de saberes.

Essas experiências mostram que o patrimônio cultural não se resume a edifícios ou objetos antigos. Ele também está presente nas pessoas, nas tradições e nas relações que dão sentido a um território. No caso do Ferreira Diniz, reconhecer essa dimensão significa considerar a comunidade como parte fundamental da história que se pretende preservar.

Tombamento e direito à permanência

A conquista do tombamento acontece em meio aos desafios enfrentados pela comunidade para proteger seu espaço diante de pressões relacionadas à especulação imobiliária. A valorização de áreas urbanas pode aumentar as disputas em torno do uso do solo e dificultar a permanência de famílias que construíram suas histórias nesses locais.

Nesse contexto, o reconhecimento federal representa um instrumento importante para a preservação do território. O tombamento estabelece mecanismos de proteção contra demolições e alterações incompatíveis com os valores históricos e culturais reconhecidos pelo poder público.

A medida, entretanto, não resolve automaticamente todas as questões relacionadas à propriedade e à permanência dos moradores. A proteção patrimonial é diferente da regularização fundiária, e a garantia dos direitos territoriais da comunidade depende de outros procedimentos e ações.

Por isso, a conquista do Ferreira Diniz deve ser compreendida tanto como um reconhecimento de sua importância histórica quanto como parte de uma discussão mais ampla sobre os direitos das comunidades quilombolas urbanas.

TAGS:
AUTOR:
Barbara Braga