Cultura
Quilombo Ferreira Diniz é o primeiro do RJ a receber tombamento federal
Localizada na Glória, região central da capital fluminense, comunidade reúne descendentes de famílias que construíram uma história de resistência desde a década de 1950 e lutam pela preservação de seu território
O Quilombo Ferreira Diniz, localizado no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, entrou para a história do patrimônio cultural brasileiro ao se tornar o primeiro quilombo do estado a receber tombamento federal pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O reconhecimento, aprovado em setembro de 2026, representa um avanço na preservação da memória da população negra e na proteção de um território cuja história atravessa gerações.
A medida chama atenção para a presença de comunidades quilombolas em áreas urbanas e para os desafios enfrentados por famílias negras na defesa de seus territórios. Em uma região valorizada da cidade, o Ferreira Diniz preserva vínculos familiares, práticas culturais e formas de convivência que fazem parte da memória negra carioca.
A decisão foi tomada durante a 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, responsável por deliberar sobre o reconhecimento de bens culturais de relevância nacional. Com o tombamento, o território passa a contar com proteção patrimonial federal, que estabelece regras para intervenções capazes de comprometer seus valores históricos e culturais.
Uma história construída por famílias negras
A trajetória do Quilombo Ferreira Diniz remonta à década de 1950, quando famílias negras passaram a construir suas vidas no território. Entre as personagens centrais dessa história está Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados em Minas Gerais, que chegou ao local com o marido, Antônio Dias Pessanha. Na mesma época, Olívia Carvalho Diniz também passou a viver na região.
Ao longo dos anos, as famílias Ferreira e Diniz estabeleceram no espaço relações de parentesco, pertencimento e convivência que contribuíram para a formação da comunidade. A história do quilombo está ligada à permanência dessas famílias e à transmissão de suas referências culturais entre diferentes gerações.
Atualmente, a comunidade reúne cerca de 70 descendentes, segundo informações divulgadas sobre o território. O reconhecimento como comunidade quilombola pela Fundação Cultural Palmares ocorreu em 2023, etapa importante para a afirmação de sua identidade e de sua trajetória histórica.
A história do Ferreira Diniz também ajuda a ampliar a compreensão sobre os quilombos no Brasil. Embora frequentemente associados a áreas rurais, esses territórios também estão presentes nas cidades e preservam formas próprias de organização, memória e resistência.
Cultura, ancestralidade e vida comunitária
No Quilombo Ferreira Diniz, a preservação da memória não está restrita às construções ou aos registros históricos. Ela também se manifesta nas práticas cotidianas, nos encontros entre moradores e nas atividades que mantêm a comunidade conectada às suas raízes.
Uma dessas referências é a Feijoada da Tia Cida, preparada às sextas-feiras por Maria Aparecida Ferreira. Além de integrar a rotina comunitária, a iniciativa contribui para a manutenção do espaço e para a continuidade das relações construídas entre as famílias.
O território também abriga atividades como rodas de capoeira, encontros culturais e futebol, que ajudam a fortalecer os laços entre moradores e a manter vivas diferentes expressões da cultura afro-brasileira. As celebrações e os encontros familiares completam esse conjunto de práticas que fazem do quilombo um espaço de convivência e transmissão de saberes.
Essas experiências mostram que o patrimônio cultural não se resume a edifícios ou objetos antigos. Ele também está presente nas pessoas, nas tradições e nas relações que dão sentido a um território. No caso do Ferreira Diniz, reconhecer essa dimensão significa considerar a comunidade como parte fundamental da história que se pretende preservar.
Tombamento e direito à permanência
A conquista do tombamento acontece em meio aos desafios enfrentados pela comunidade para proteger seu espaço diante de pressões relacionadas à especulação imobiliária. A valorização de áreas urbanas pode aumentar as disputas em torno do uso do solo e dificultar a permanência de famílias que construíram suas histórias nesses locais.
Nesse contexto, o reconhecimento federal representa um instrumento importante para a preservação do território. O tombamento estabelece mecanismos de proteção contra demolições e alterações incompatíveis com os valores históricos e culturais reconhecidos pelo poder público.
A medida, entretanto, não resolve automaticamente todas as questões relacionadas à propriedade e à permanência dos moradores. A proteção patrimonial é diferente da regularização fundiária, e a garantia dos direitos territoriais da comunidade depende de outros procedimentos e ações.
Por isso, a conquista do Ferreira Diniz deve ser compreendida tanto como um reconhecimento de sua importância histórica quanto como parte de uma discussão mais ampla sobre os direitos das comunidades quilombolas urbanas.




