Educação
Quando ensinar também é transformar: o papel da educação em ‘A Nobreza do Amor’ e ‘Por Você’
No mês em que se celebra o Dia do Professor, trajetórias de Niara e Lucas mostram diferentes caminhos para entender a educação como ferramenta de transformação, pertencimento e construção de futuros
Educação nem sempre começa dentro de uma sala de aula. Às vezes, ela nasce de uma conversa, de uma história contada por alguém mais velho, da memória de uma comunidade ou até da decisão de uma pessoa de não aceitar que crianças cresçam sem a possibilidade de escolher o próprio futuro. É justamente a partir dessas diferentes dimensões do ensino que ‘A Nobreza do Amor’ e ‘Por Você’ apresentam personagens que fazem da educação parte essencial de suas trajetórias.
No mês em que se celebra o Dia do Professor, em 15 de outubro, as duas novelas colocam em cena personagens que entendem o conhecimento não apenas como conteúdo, mas como uma possibilidade concreta de transformar vidas e comunidades. De um lado, Niara (Erika Januza) se mobiliza para garantir que crianças de Barro Preto tenham acesso à escola. Do outro, Lucas (Amaury Lorenzo) encara a educação como uma missão pessoal diante de uma realidade marcada por violência, evasão e desigualdade.
São histórias diferentes, mas que chegam a uma mesma questão: o que pode mudar quando uma comunidade passa a acreditar na educação?
Em Barro Preto, construir uma escola também significa construir um futuro
Em ‘A Nobreza do Amor’, uma das transformações mais significativas provocadas por Niara acontece justamente quando ela percebe uma ausência que ultrapassa a estrutura física de uma escola: as crianças de Barro Preto não tinham garantido o direito de estudar perto de onde viviam.
Ao descobrir que o município não contava com uma unidade de ensino em funcionamento, Niara também toma conhecimento de que muitas crianças precisavam se deslocar até Biri-Biri para estudar, enquanto outras sequer tinham acesso à educação.
A reação da personagem não é simplesmente individual. Ela mobiliza os moradores, conversa com a comunidade, participa da articulação por meio de abaixo-assinados e ajuda a construir um movimento para que a cidade volte a ter um espaço dedicado ao ensino.
A escola, então, deixa de ser apenas um prédio. Torna-se um projeto coletivo. E essa dimensão é importante para entender a maneira como a novela aborda a educação. Em Barro Preto, ensinar não significa somente transmitir conteúdos. O espaço também passa a valorizar a oralidade, os saberes ancestrais e as histórias compartilhadas entre gerações.
Os próprios autores da novela, Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., destacam essa perspectiva ao falar sobre a relação entre educação, família e tradição oral.
“A educação começa na família, e somos um povo de tradição oral fortíssima.”
A frase ajuda a ampliar a discussão sobre o que significa aprender. Antes mesmo da escola formal, existe o conhecimento construído dentro das famílias, das comunidades e das experiências de quem veio antes.

Manoella Mello | Angélica Goudinho | Globo
Nesse sentido, a trajetória de Niara também apresenta uma dimensão especialmente importante: a valorização da memória como forma de conhecimento.
Ouvir histórias é aprender. Recontá-las é manter uma experiência viva. Transmitir saberes é permitir que uma nova geração tenha acesso a referências que não começaram com ela.
É uma compreensão de educação que aproxima conhecimento, identidade e ancestralidade.
Um legado que permanece depois de Niara
A escola de Barro Preto também ganha outro significado porque permanece mesmo quando Niara decide partir.
Após a saída da personagem, Ana Maria (Julia Lemos) assume as aulas e dá continuidade ao projeto educacional que começou a ser construído com a mobilização da comunidade.
É aí que a novela apresenta uma ideia poderosa: transformações verdadeiras não dependem apenas de quem as inicia.
Quando um projeto passa a pertencer à comunidade, ele pode continuar existindo, sendo reinventado e alcançando outras gerações.
A escola se transforma, portanto, em um dos maiores legados deixados por Niara em Barro Preto. Mais do que uma conquista pessoal, representa a possibilidade de que crianças tenham acesso ao conhecimento e possam imaginar futuros diferentes para si mesmas.
Em ‘Por Você’, ensinar também é uma forma de proteger
Na novela das 19h, Lucas (Amaury Lorenzo) vive outra relação com a educação.
Professor por vocação, ele carrega uma experiência dolorosa que muda sua maneira de enxergar o próprio trabalho. Depois de perder a esposa durante um episódio de violência cometido por um ex-aluno que havia abandonado os estudos, Lucas passa a encarar o ensino como uma missão ainda mais urgente.
Sua história parte de uma pergunta difícil: o que acontece quando um jovem deixa de encontrar na escola um caminho possível?
A partir dessa experiência, Lucas decide dedicar sua trajetória a ajudar estudantes a permanecerem no ambiente escolar e encontrarem perspectivas para o futuro.
O recomeço acontece no Rio de Janeiro, onde ele assume a direção da Escola Maria Firmina dos Reis, localizada na comunidade fictícia de Vila Maravilha.

Manoella Mello | Angélica Goudinho | Globo
O nome da instituição já carrega uma referência significativa. Maria Firmina dos Reis, escritora negra maranhense do século XIX e autora de Úrsula, é reconhecida como uma das pioneiras da literatura brasileira e uma figura fundamental para a história da produção intelectual negra no país.
Dentro da novela, a escola se torna justamente o espaço onde Lucas tenta colocar em prática sua visão de educação: um ambiente acolhedor, seguro e capaz de oferecer condições para que os estudantes permaneçam estudando.
Permanecer na escola também é uma questão social
‘Por Você’ amplia a discussão ao apresentar obstáculos que fazem parte da realidade de muitas instituições brasileiras.
A trama aborda problemas como falta de investimentos públicos, violência escolar, bullying, insegurança, conflitos territoriais e sobrecarga dos professores. Em determinadas situações, a violência chega ao ponto de interromper as próprias atividades escolares.
Também existe o desafio de trabalhar com turmas numerosas, que dificultam um acompanhamento individualizado dos estudantes.
Nesse contexto, Lucas representa uma figura que ultrapassa a ideia tradicional do professor como alguém responsável apenas por ensinar uma disciplina.
Ele tenta compreender o estudante, suas dificuldades, seus medos e as circunstâncias que podem afastá-lo da escola.
Porque garantir educação não significa apenas abrir a porta de uma sala de aula. Também significa criar condições para que o aluno consiga permanecer ali.
Duas histórias, uma mesma potência
Niara e Lucas não vivem a mesma experiência. Ela luta para criar o acesso à educação em uma cidade que não tinha uma escola funcionando. Ele trabalha para garantir permanência em um ambiente atravessado por diferentes formas de violência e desigualdade.
Mas as duas trajetórias se encontram em um ponto essencial: a educação aparece como uma construção coletiva e como possibilidade de futuro.
Em ‘A Nobreza do Amor’, essa transformação passa pela comunidade, pela oralidade e pela preservação dos saberes. Em ‘Por Você’, ela aparece no cotidiano de uma escola que precisa lidar com problemas que extrapolam os muros da instituição.
As duas novelas também ajudam a lembrar que professores não trabalham apenas com conteúdos. Eles convivem diariamente com sonhos, inseguranças, histórias familiares, desigualdades e expectativas de crianças e jovens.
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Manoella Mello | Angélica Goudinho | Globo
Por isso, falar sobre educação também é falar sobre quem tem acesso ao conhecimento, quem consegue permanecer estudando, quais histórias são ensinadas e quais referências chegam às novas gerações.
Ensinar também é deixar um legado
Existe ainda uma conexão simbólica entre Niara e Lucas: nenhum dos dois pensa na educação apenas como uma conquista individual.
Niara mobiliza uma cidade para construir algo que permanecerá depois dela. Lucas tenta criar caminhos para que seus estudantes possam construir suas próprias histórias. Em ambos os casos, ensinar é acreditar que o futuro pode ser diferente.






