Cultura
Quando a palavra vira resistência: “Ritmo & Poesia” reúne Rincon Sapiência e Tairini em Ubatuba
Encontro gratuito acontece nesta terça-feira (22) e propõe rap, poesia e oralidade como caminhos para discutir identidade, memória e autoestima negra
Há palavras que contam histórias. Outras ajudam a reconstruí-las. Há versos que registram uma experiência e batidas que fazem uma memória atravessar gerações. É partindo dessa compreensão que o encontro “Ritmo & Poesia como ferramenta de reconstrução da autoestima e da identidade da população negra” propõe uma conversa sobre o lugar da música, da poesia e da oralidade na construção de identidades negras.
O evento acontece nesta terça-feira (22), das 18h às 21h, na Biblioteca Pública Municipal “Ateneu Ubatubense”, em Ubatuba, no litoral de São Paulo. Com entrada gratuita e acessibilidade em Libras, a programação reúne o rapper, poeta e produtor musical Rincon Sapiência, a arte-educadora e poeta Tairini e o sociólogo nigerino Issaka Mainassara Bano, idealizador da iniciativa.
A proposta vai além de pensar a arte apenas como entretenimento. O encontro parte da ideia de que palavra falada, palavra escrita, música e poesia também podem funcionar como instrumentos de resistência, memória, educação e produção de conhecimento. Em vez de apenas falar sobre identidade negra, a iniciativa busca criar um espaço para que diferentes experiências possam ser compartilhadas a partir das próprias referências de quem as vive.
Quando a arte também produz conhecimento
A discussão sobre autoestima costuma ser colocada no campo individual: a relação de cada pessoa com sua imagem, sua história e sua percepção sobre si mesma. O “Ritmo & Poesia” propõe ampliar esse olhar ao considerar que pertencimento também é construído coletivamente.
Quando uma comunidade encontra espaço para contar suas histórias, reconhecer suas referências e produzir novas narrativas sobre si, a cultura passa a desempenhar uma função que ultrapassa a criação artística.
É nesse sentido que o projeto apresenta ritmo e poesia como tecnologias de resistência. Não se trata apenas de uma metáfora para definir a potência da arte, mas de reconhecer que diferentes linguagens culturais podem carregar memórias, organizar experiências e produzir conhecimento.
A iniciativa foi idealizada por Issaka Bano em 2023 e busca justamente aproximar arte, pesquisa, educação e comunidade. A proposta reúne saberes que muitas vezes circulam separadamente, colocando em diálogo a experiência de artistas, educadores e pesquisadores.
Do rap à poesia: diferentes formas de dizer quem somos
Entre os convidados está Rincon Sapiência, artista nascido e criado na Zona Leste de São Paulo e ligado à cena hip-hop desde 2000. O rapper ganhou projeção nacional com trabalhos como “Ponta de Lança” e o álbum “Galanga Livre”, lançado em 2017.
Sua produção é marcada pela combinação entre rap, ritmos afro-brasileiros e afrobeats, além da presença recorrente de temas ligados à afroestima, cultura negra, crítica social e identidade.
A relação entre rap e construção de identidade também aparece em experiências educacionais. Um estudo publicado na revista Poled, por exemplo, analisou uma oficina de rap que utilizou “Ponta de Lança” para trabalhar referências negras, identidade e cultura com estudantes. A atividade relacionou a música a discussões sobre artistas negros e sobre a própria construção da poesia e do rap.
Em Ubatuba, a discussão ganha outra camada com a participação de Tairini. Arte-educadora e poeta, ela atua desde 2019 no município, especialmente com crianças, adolescentes e jovens de territórios periféricos, aproximando educação cultural e mediação artística. Em 2025, lançou seu primeiro livro, “Sobrecarga”.
Sua trajetória coloca a poesia também no campo da formação. Quando o verso deixa o livro e chega à escola, à comunidade ou a uma roda de conversa, ele passa a ocupar outros espaços de circulação e pode se transformar em ferramenta para que jovens encontrem maneiras de nomear suas próprias experiências.
Um encontro entre diferentes saberes
A mediação ficará a cargo de Issaka Bano, responsável pela idealização do projeto. Internacionalista de formação, ele é mestre em Educação pela Unicamp e doutorando em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da universidade.
Bano também é pesquisador do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da USP, coordena o Coletivo Raízes São Paulo e atualmente trabalha na organização da coleção “África(s) na(s) literatura(s)”. Sua atuação transita entre pesquisa, literatura e produção cultural.
Essa combinação ajuda a definir a proposta do encontro: não existe apenas um tipo de conhecimento em discussão. A experiência artística, o saber acadêmico e a vivência comunitária aparecem como partes de uma mesma conversa.
É também uma maneira de deslocar a ideia de que conhecimento só é produzido dentro de universidades ou instituições formais. Uma letra de rap, um poema, uma história contada oralmente ou uma experiência compartilhada em uma comunidade também podem carregar interpretações sobre o mundo, registrar memórias e elaborar formas de existência.
A memória também pode ser cantada
A cultura negra brasileira é atravessada por linguagens que preservam e reinventam histórias. Música, dança, oralidade, literatura e outras manifestações culturais funcionam como espaços nos quais memórias individuais e coletivas continuam circulando.
Em Ubatuba, a proposta do “Ritmo & Poesia” parte justamente dessa possibilidade: olhar para o que acontece quando essas linguagens deixam de ser tratadas apenas como manifestações culturais e passam a ser reconhecidas também como formas de elaboração social.
A ideia de reconstrução da autoestima aparece, então, ligada à possibilidade de encontrar referências, reconhecer trajetórias e produzir novas narrativas.
É uma discussão que também passa pela representação. Quem aparece como protagonista de uma história? Quais referências são apresentadas para crianças e jovens? Quem tem o direito de narrar sua própria experiência? E o que acontece quando essas pessoas encontram espaços para transformar suas vivências em poesia, música e conhecimento?
São perguntas que atravessam o encontro e ajudam a explicar por que a iniciativa aposta na aproximação entre arte e território.
Serviço
O encontro “Ritmo & Poesia como ferramenta de reconstrução da autoestima e da identidade da população negra” acontece nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, das 18h às 21h, na Biblioteca Pública Municipal “Ateneu Ubatubense”, localizada na Praça 13 de Maio, 52, no Centro de Ubatuba (SP). A entrada é gratuita e o evento conta com acessibilidade em Libras.
A programação começa às 18h, com recepção ao som da DJ Manu Orisum. Às 19h, acontece a mesa de conversa com Rincon Sapiência e Tairini, com mediação de Issaka Bano. O encerramento está previsto para as 21h.




