14 de outubro de 2026

Música

Paulinho da Viola leva a história do samba para a mesinha do Tiny Desk

Sambista apresenta clássicos como “Dança da Solidão” e “Coração Leviano” em uma performance intimista que celebra seis décadas de trajetória e revela reflexões sobre o processo de criação musical

Barbara Braga | 14/10/2026
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- Crédito: @aathonyto | @arielabueno | @tinydeskbra | @paulinhodaviola

A genialidade de Paulinho da Viola ganha novos contornos em uma apresentação que valoriza a força da música brasileira em sua forma mais essencial. O cantor, compositor e multi-instrumentista é o destaque de um novo episódio do Tiny Desk Brasil, lançado nesta terça-feira (13), às 11h, no YouTube. Com um repertório que atravessa gerações, o sambista apresenta canções que se tornaram parte da memória musical do país, entre elas “Dança da Solidão” e “Coração Leviano”.

Conhecido pela elegância de suas composições e pela relação profunda com o samba e o choro, Paulinho ocupa a mesinha em uma formação que aproxima o público de sua musicalidade. Ao lado de sua banda e de seus filhos, João Rabello, no violão, e Beatriz Rabello, nos vocais, o artista revisita sua obra em um ambiente que privilegia a escuta, a proximidade entre os músicos e a espontaneidade da execução ao vivo.

A apresentação também evidencia uma característica que acompanha sua trajetória há quase seis décadas: a capacidade de unir o respeito à tradição musical brasileira a uma linguagem própria, marcada pela delicadeza dos arranjos e pela precisão de quem transformou o samba em uma das expressões mais sofisticadas de sua obra.

Paulinho da Viola revisita a própria trajetória

Durante a gravação, o ambiente intimista do Tiny Desk Brasil despertou lembranças do início da carreira, especialmente dos primeiros discos e do processo de produzir suas próprias músicas. Ao recordar uma época em que acumulava diferentes funções na criação de um álbum, Paulinho falou sobre a liberdade e, ao mesmo tempo, as inseguranças que acompanhavam esse trabalho.

“Eu fazia tudo. Quer dizer: fazia letra, música, às vezes fazia um ou outro arranjo, cantava, tocava”, relembrou o artista ao comentar a ausência de um produtor musical em suas primeiras gravações.

A experiência de ouvir os discos depois de finalizados também provocava nele uma espécie de autocrítica. Segundo Paulinho, era comum perceber detalhes que gostaria de ter mudado, desde escolhas nas letras até aspectos da execução. Com o tempo, essa relação se tornou tão intensa que ele decidiu deixar de ouvir aquelas gravações.

O relato revela um lado menos conhecido de um artista consagrado: mesmo com uma obra reconhecida por sua consistência, Paulinho da Viola mantém uma relação inquieta com a própria criação, marcada pela busca por novas possibilidades e pela consciência de que a música nem sempre pode ser controlada em todos os seus detalhes.

A música que chega como um sonho

Outro momento da conversa é dedicado ao mistério da composição. Paulinho descreve situações em que uma melodia parecia acompanhá-lo espontaneamente, como se a música surgisse antes mesmo de uma decisão consciente de criá-la.

Ao tentar recuperar essas ideias, porém, o artista percebia que a experiência original nem sempre podia ser reproduzida. Quando tentava memorizar a melodia ou organizá-la racionalmente, sentia que algo se perdia.

“Era uma coisa que ficou assim numa espécie de um sonho”, contou.

A reflexão ajuda a compreender a sensibilidade que atravessa seu repertório. Em vez de apresentar a composição apenas como resultado de técnica ou planejamento, Paulinho compartilha a dimensão intuitiva do processo artístico, em que inspiração, memória e experimentação se encontram.

Essa perspectiva também dialoga com a proposta do Tiny Desk Brasil, formato que busca registrar a música em sua essência, sem a grandiosidade dos grandes palcos e com espaço para as nuances de cada interpretação.

Uma história construída entre o samba e o choro

Nascido no Rio de Janeiro como Paulo César Batista de Faria, Paulinho da Viola cresceu em um ambiente profundamente ligado à música. Filho do violonista Cesar Faria, teve contato desde cedo com rodas musicais que reuniam nomes importantes, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Essa convivência contribuiu para sua aproximação com o choro e o samba, linguagens que se tornariam fundamentais em sua identidade artística.

O apelido que o acompanharia por toda a carreira surgiu justamente de sua ligação com o violão. A partir da convivência com o instrumento e de sua presença no cenário musical carioca, o nome Paulinho da Viola passou a identificar um compositor que construiria uma obra singular na música brasileira.

Sua trajetória ganhou projeção em 1965, quando participou do espetáculo “Rosa de Ouro”, ao lado de artistas como Clementina de Jesus, Aracy Cortes e Nelson Sargento, em uma iniciativa importante para a valorização do samba. No ano seguinte, sua relação com a Portela ganhou força quando “Memórias de um Sargento de Milícias” foi escolhido como samba-enredo da escola.

Desde então, sua obra passou a ocupar um lugar de destaque na história da música nacional. Entre sambas, choros e composições que exploram diferentes possibilidades melódicas, Paulinho consolidou uma assinatura artística que combina tradição, refinamento e liberdade criativa.

Uma apresentação que valoriza a música em sua forma mais natural

No Tiny Desk Brasil, Paulinho da Viola assume voz, violão e cavaquinho. A formação conta ainda com João Rabello no violão, Celsinho Silva e Marcos Esguleba na percussão, Ricardo Costa na bateria, Dininho Silva no baixo, Adriano Souza no piano, Mário Séve na flauta e no saxofone soprano, além de Beatriz Rabello nos vocais.

A proposta do formato é registrar apresentações em um espaço reduzido, sem amplificação da voz no ambiente, aproximando os músicos e favorecendo uma relação mais orgânica entre instrumentos e interpretação. A limitação de espaço e recursos técnicos deixa de ser um obstáculo e passa a estimular outras soluções musicais, destacando nuances que podem passar despercebidas em apresentações de maior escala.

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Barbara Braga