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Muito além de uma vitória: o que o domínio etíope em Berlim revela sobre o atletismo mundial
Tigst Assefa e Guye Adola venceram a Maratona de Berlim, mas os resultados também ajudam a contar uma história de décadas de excelência etíope nas provas de longa distância
A Maratona de Berlim terminou no último domingo (27) com uma cena que já se tornou familiar nas grandes provas de longa distância: atletas etíopes no topo do pódio. Em 2026, porém, o domínio ganhou novos personagens. Tigst Assefa venceu a prova feminina com 2h11min04s, enquanto Guye Adola levou a disputa masculina em 2h02min50s, garantindo um novo capítulo para a tradição do país no atletismo mundial.
Mas reduzir o resultado a duas vitórias seria deixar de fora a história que existe por trás delas.
A Etiópia construiu, ao longo de décadas, uma das trajetórias mais marcantes das corridas de longa distância. De Abebe Bikila a Haile Gebrselassie, de Tirunesh Dibaba a Kenenisa Bekele, diferentes gerações transformaram o país em uma referência mundial. Agora, nomes como Tigst Assefa e Guye Adola mantêm essa história em movimento.
Berlim foi apenas o capítulo mais recente
A edição de 2026 mostrou a força etíope de maneira bastante evidente.
Na prova feminina, Assefa terminou à frente de suas compatriotas Bedatu Hirpa, segunda colocada, e Dera Dida, terceira. As cinco primeiras posições foram ocupadas por atletas da Etiópia.
No masculino, Adola também venceu acompanhado de outro etíope no pódio: Gemechu Dida terminou em segundo, enquanto o tanzaniano Gabriel Geay ficou em terceiro. Além disso, quatro dos cinco primeiros colocados eram etíopes.
O resultado ajuda a dimensionar algo maior do que uma boa atuação em uma única manhã. Existe profundidade.
Não é apenas a presença de um grande nome capaz de disputar o título. É a quantidade de atletas de alto nível surgindo e competindo nas mesmas provas.
Tigst Assefa quase transformou vitória em recorde
A história de Tigst Assefa em Berlim poderia ter terminado de maneira ainda mais extraordinária.
A atleta chegou aos quilômetros finais em ritmo que a colocava na disputa pelo recorde mundial da maratona, de 2h09min56s. Aos 40 quilômetros, ela ainda estava dentro da projeção para superar a marca, mas enfrentou um problema físico na parte final da prova e precisou diminuir o ritmo.
Mesmo assim, cruzou a linha em 2h11min04s, tempo que a World Athletics classificou como o terceiro mais rápido da história da maratona feminina.
O resultado também reforça a relação especial de Assefa com Berlim. Em 2023, foi justamente na capital alemã que ela estabeleceu então o recorde mundial feminino, com 2h11min53s.
Ou seja: voltar à mesma cidade três anos depois e vencer novamente, desta vez com uma marca ainda mais rápida, coloca Berlim como um dos principais capítulos da carreira da corredora.
Guye Adola reencontra o topo
No masculino, Guye Adola também tinha uma história particular com a prova.
O etíope venceu Berlim pela primeira vez em 2021. Cinco anos depois, voltou ao topo e ainda estabeleceu seu melhor tempo pessoal: 2h02min50s.
A marca representou uma evolução importante para o atleta. Em sua estreia na maratona, justamente em Berlim, em 2017, Adola havia terminado na segunda colocação, atrás de Eliud Kipchoge. Agora, nove anos depois daquela estreia, retornou à mesma prova para conquistar novamente o título, e com um novo recorde pessoal.
A temporada de 2026 também vinha sendo especial para o corredor. Antes de Berlim, ele havia vencido a Maratona de Roterdã, em abril, com 2h03min54s.
Uma história que começou muito antes
Para entender por que resultados como o de Berlim não aparecem isoladamente, é preciso voltar algumas décadas.
Em 1960, nos Jogos Olímpicos de Roma, o etíope Abebe Bikila entrou para a história ao conquistar o ouro na maratona. Correndo descalço pelas ruas italianas, tornou-se o primeiro africano negro a conquistar uma medalha de ouro olímpica. Quatro anos depois, em Tóquio, repetiu o feito e tornou-se bicampeão olímpico.
A vitória de Bikila teve um significado que ultrapassou o esporte. Ela abriu espaço para uma geração de atletas africanos que passaria a ocupar um lugar cada vez mais importante nas provas de resistência.
A própria World Athletics relaciona o legado de Bikila à sequência de grandes nomes que vieram depois, entre eles Tirunesh Dibaba, Derartu Tulu, Haile Gebrselassie e Kenenisa Bekele.
De geração em geração
Talvez essa seja a parte mais interessante da história.
A excelência etíope não pertence a uma única geração.
Bikila abriu um caminho. Depois vieram corredores que transformaram títulos olímpicos, mundiais e recordes em parte da identidade esportiva do país. Agora, Assefa e Adola ocupam esse mesmo cenário com suas próprias histórias.
E Berlim mostrou novamente a profundidade desse grupo. Na prova feminina, sete das dez primeiras colocadas eram etíopes. No masculino, seis dos dez primeiros também representavam a Etiópia.
Isso ajuda a explicar por que a discussão sobre o atletismo etíope não pode ficar restrita a um campeão ou a um recorde. Existe uma sucessão de atletas capazes de disputar as maiores provas do calendário internacional.




