9 de maio de 2026

Cultura

Monique Evelle lança livro sobre amor e questiona “As pessoas esperam que a gente fale só de luta”

Em nova obra, empresária abandona a lógica da performance para discutir vínculos, permanência e humanidade

Barbara Braga | 08/05/2026
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Durante anos, Monique Evelle foi apresentada ao público como símbolo de estratégia, inovação, liderança e performance. A mulher negra que venceu, a empreendedora reconhecida pela Forbes, a investidora que rompeu barreiras dentro de espaços historicamente fechados para pessoas negras.

Mas agora, Monique resolveu falar sobre outra coisa: amor. E talvez o impacto disso diga mais sobre a sociedade do que sobre o próprio livro.

Quando mulheres negras falam de afeto, isso ainda causa estranhamento

Em Viagens que a gente não faz por agenda, faz por amor, Monique escolhe abandonar o discurso corporativo que costuma cercar figuras públicas negras de sucesso para escrever sobre vínculos, presença, equilíbrio emocional, vulnerabilidade e permanência.

“Eu poderia ter escrito mais um livro sobre negócios, mas quis escrever sobre o que sustenta tudo isso quando o trabalho acaba”, afirma.

A frase parece simples, mas carrega uma ruptura importante. Porque pessoas negras, especialmente mulheres negras em posição de destaque, quase sempre são empurradas para narrativas centradas em superação, trauma, produtividade ou resistência. Como se não houvesse espaço para falar de leveza sem precisar justificar sofrimento antes.

“As pessoas esperam que a gente fale só de luta”

Talvez a frase mais forte do livro seja justamente a mais direta.

“As pessoas esperam que a gente fale só de luta.”

E Monique não está falando apenas sobre mercado editorial. Ela está falando sobre imaginário social. Durante muito tempo, a sociedade brasileira condicionou pessoas negras ao lugar da sobrevivência permanente. O corpo negro que trabalha, resiste, denuncia e suporta.

Mas raramente o corpo negro que descansa, ama, hesita e deseja ficar. Ao colocar o amor romântico no centro da narrativa, Monique tensiona exatamente essa expectativa.

Outro ponto importante do livro é a maneira como ela fala sobre relacionamento sem transformar afeto em submissão emocional. Ao comentar sua relação com Lucas, que também atua como sócio em parte dos negócios, Monique defende a ideia de construção conjunta sem perda de individualidade.

“Nem tudo precisa ser dividido o tempo todo.”

A frase atravessa outra pressão histórica colocada sobre mulheres: a ideia de que crescer profissionalmente exige abrir mão da vida afetiva ou sacrificar partes de si.

“Viagens que a gente não faz por agenda, faz por amor” parece funcionar menos como um livro sobre romance e mais como uma disputa de narrativa.

Especialmente porque mulheres negras quase nunca tiveram autorização social para serem vistas com complexidade emocional. Quando aparecem publicamente, geralmente precisam performar força o tempo inteiro.

Monique escolhe fazer outra coisa. Escolhe falar sobre aquilo que permanece quando a lógica da performance acaba. E é justamente isso que torne o livro tão simbólico: a tentativa de lembrar que pessoas negras não precisam existir apenas através da dor para serem levadas a sério.

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Barbara Braga