29 de setembro de 2026

Música

Josyara e Roberto Mendes celebram a força da música baiana no Tiny Desk Brasil

Em encontro entre gerações, artistas de Juazeiro e Santo Amaro transformam a mesinha em espaço de ancestralidade, inovação e memória

Barbara Braga | 29/09/2026
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- Crédito: @aathonyto | @tinydeskbra | @_josyara |

A Bahia tem muitas formas de contar a própria história. Pode ser pelo samba de roda, pela força de um violão, pela voz de quem transforma território em música ou pelas novas sonoridades que nascem justamente do encontro entre passado e presente. No 20º episódio do Tiny Desk Brasil, essas possibilidades se encontram em uma apresentação conduzida por Josyara e Roberto Mendes.

O episódio, que estreia nesta terça-feira (29), às 11h, no canal do projeto no YouTube, coloca lado a lado dois artistas de gerações diferentes, mas unidos por uma relação profunda com a Bahia. De um lado, a cantora, compositora e instrumentista de Juazeiro, conhecida pela maneira percussiva de tocar o violão. Do outro, o compositor e pesquisador de Santo Amaro da Purificação, um dos nomes fundamentais na preservação e reinvenção do samba chula do Recôncavo Baiano.

O resultado é uma apresentação que não trata tradição e inovação como caminhos opostos. Pelo contrário: mostra como uma pode alimentar a outra.

Josyara leva o violão como extensão do próprio corpo

No Tiny Desk Brasil, Josyara apresenta músicas como “Apreciação” e “Rota de Colisão”, colocando no centro da performance uma característica que se tornou uma de suas principais assinaturas: o violão percussivo.

Mais do que acompanhar a própria voz, o instrumento participa ativamente das composições. Batidas, cordas e ritmos criam uma camada que transforma o violão em parte da própria percussão das canções.

“Ser instrumentista é muito orgânico pra mim. É uma coisa só: metade mulher, metade violão”, explica Josyara.

A artista conta que levou tempo para assumir para si mesma a identidade de violonista por não ter seguido uma formação tradicional baseada em teoria musical. Sua relação com o instrumento, no entanto, nasceu justamente da experimentação e da escuta.

Essa intimidade aparece na apresentação.

No formato do Tiny Desk, a ausência de microfones para amplificar a voz aproxima o artista do próprio ambiente e exige uma outra relação com o som. Para Josyara, a experiência teve algo de reencontro com as próprias origens.

“Foi muito interessante não ter microfone na voz, esse retorno da voz, porque eu me coloquei ali como estivesse em casa, do jeito que eu comecei”, conta.

Quando Juazeiro encontra Santo Amaro

Se Josyara representa uma perspectiva contemporânea da música baiana, Roberto Mendes chega à mesinha carregando décadas de pesquisa, criação e relação com o Recôncavo.

Nascido em Santo Amaro da Purificação, o artista construiu uma carreira profundamente ligada à cultura de seu território. Ao longo de mais de quatro décadas, lançou 11 álbuns e teve suas composições interpretadas por nomes como Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Virgínia Rodrigues.

Sua obra também está diretamente ligada ao samba chula, expressão do samba de roda do Recôncavo Baiano reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

A participação de Mendes no Tiny Desk não é, portanto, apenas uma colaboração musical. É a presença de um guardião de uma tradição em diálogo com uma artista que vem criando novas possibilidades para a canção brasileira.

E o encontro começa pelo próprio instrumento.

Assim como Josyara desenvolveu uma maneira particular de transformar o violão em elemento percussivo, Roberto Mendes construiu uma técnica influenciada pela pulsação rítmica da chula e pela tradição da viola machete.

Ele próprio define seu instrumento como um “instrumento percussivo de cordas feridas”.

É justamente nessa aproximação que a apresentação ganha uma de suas camadas mais interessantes: dois artistas separados por gerações encontram semelhanças em suas maneiras de fazer o violão falar.

“Ela tem uma maneira de tocar o violão muito parecida com a minha”, observa Roberto Mendes.

“Massemba” e a memória que atravessa gerações

O momento mais simbólico da apresentação acontece com “Massemba”, composição de Roberto Mendes e Capinan.

A canção aborda a travessia dos navios negreiros, a ancestralidade africana e a transformação da dor em resistência cultural e espiritual no Brasil.

Já interpretada por artistas como Maria Bethânia e Virgínia Rodrigues, “Massemba” ganha uma nova leitura no encontro entre Josyara e Roberto Mendes.

A performance emocionou quem estava presente na gravação e levou o público às lágrimas.

A participação de Mendes também assume um caráter ritualístico, reforçando a conexão da música com as tradições culturais do Recôncavo e com uma memória que não está apenas nos livros, mas também nos corpos, nos ritmos, nas vozes e nos instrumentos.

Ao lado de Josyara, “Massemba” ganha ainda outra dimensão: uma música construída a partir da memória ancestral encontra uma artista de uma nova geração que carrega em sua própria obra a pesquisa sobre território, identidade e experimentação.

Uma carreira construída entre tradição e invenção

Nascida em Juazeiro, na Bahia, Josyara vem construindo uma trajetória marcada justamente pela tentativa de ampliar os limites da canção.

Seu primeiro álbum, “Mansa Fúria”, lançado em 2018, foi destacado pela crítica e rendeu à artista o WME Awards na categoria Revelação, em 2019.

Depois vieram trabalhos como “Estreite”, parceria com Giovani Cidreira, “ÀdeusdarÁ” e o EP “Mandinga Multiplicação”, dedicado a releituras de canções da Timbalada.

Em 2024, Josyara voltou a ser reconhecida pelo WME Awards, desta vez como Melhor Instrumentista, em uma confirmação da importância que seu trabalho com o violão ocupa em sua trajetória.

Mais recentemente, lançou “AVIA”, álbum que reúne parcerias com Liniker, Iara Rennó e Juliana Linhares, além de participações de Pitty e Chico Chico.

A trajetória passa por festivais como Primavera Sound, Bananada e DoSol, mas mantém como ponto de partida a relação da artista com suas origens.

Roberto Mendes e a preservação de uma memória viva

A história de Roberto Mendes também mostra como tradição não significa permanecer parado no tempo.

Ao longo de mais de 40 anos de carreira, o músico transformou elementos da cultura de Santo Amaro e do Recôncavo em uma linguagem própria, capaz de atravessar diferentes gerações e chegar a públicos muito além da Bahia.

Entre suas composições estão “Yayá Massemba”, “Filosofia Pura”, “Manda Chamar” e “Caribe Calibre Amor”.

Sua pesquisa sobre o samba chula também se tornou parte essencial de sua trajetória. Ao observar e estudar os mestres da tradição e a relação entre a viola machete e o canto, Mendes incorporou esses elementos ao violão e desenvolveu uma técnica reconhecida dentro da música popular brasileira.

Por isso, o encontro com Josyara não representa apenas uma colaboração entre dois músicos baianos.

É também um encontro entre memória e reinvenção.

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Barbara Braga