Música
“Elas Cantam Arlindo” reúne Vanessa da Mata, Luedji Luna, Agnes Nunes e outras duas artistas em tributo ao sambista
Álbum completo da Nas Nuvens Music Group reúne cinco releituras nas vozes de Ivete Sangalo, Agnes Nunes, Duda Beat, Luedji Luna e Vanessa da Mata; projeto também prevê documentário sobre a trajetória do compositor
A obra de Arlindo Cruz ganha novos caminhos em “Elas Cantam Arlindo”, projeto que reúne cinco artistas de diferentes gerações e universos musicais para revisitar o repertório de um dos grandes nomes do samba brasileiro. Idealizado pela Nas Nuvens Music Group, responsável pela gestão do catálogo do compositor, o trabalho chega ao formato de álbum completo com a chegada de “O Que é o Amor”, interpretada por Vanessa da Mata, faixa que encerra o repertório.
Ao lado de Vanessa, participam do projeto Ivete Sangalo, Agnes Nunes, Duda Beat e Luedji Luna. Cada uma assume uma composição e apresenta sua própria leitura, aproximando as canções de experiências, referências e sonoridades distintas. O resultado atravessa temas como pertencimento, fé, desejo, memória e amor, sem perder de vista a identidade musical de Arlindo.
A proposta parte de uma pergunta: como manter viva a obra de um compositor tão ligado à história do samba sem limitar suas canções a uma única interpretação? Em vez de reproduzir fórmulas, o projeto aposta na pluralidade de vozes femininas para apresentar o repertório a diferentes públicos e reafirmar a capacidade dessas composições de atravessar gerações.
Cinco artistas, cinco formas de interpretar Arlindo Cruz
A abertura do álbum fica por conta de Ivete Sangalo, que interpreta “O Meu Lugar”, canção associada à identidade do samba carioca e à trajetória de Arlindo. A escolha coloca em evidência uma música que carrega referências de território, pertencimento e memória afetiva.
“Cantar ‘O Meu Lugar’ foi também uma maneira de reverenciar esse legado com muito carinho e respeito”, afirma Ivete. Sua participação reforça a dimensão simbólica da faixa, que ultrapassa a experiência individual e se conecta à história de uma tradição musical profundamente presente na cultura brasileira.
Na sequência, Agnes Nunes apresenta “Será Que é Amor?” a partir de suas referências na nova MPB e de suas vivências como mulher nordestina. A interpretação também acompanha um momento de transformação em sua trajetória artística. “Hoje eu me sinto mais livre artisticamente, mais mulher, menos menina”, conta a cantora.
Já Duda Beat leva “Agora Viu Que Perdeu e Chora” para uma atmosfera que combina melancolia e dança, aproximando a composição da estética nordestina-pop que marca seu trabalho. A releitura parte também de experiências pessoais e lembranças de relacionamentos. “A canção despertou algumas memórias afetivas em mim, desses amores que passaram na minha vida”, diz.
Em “O Bem”, Luedji Luna interpreta uma composição que aborda fé, esperança e a possibilidade de responder ao desamor com bondade. A escolha amplia o diálogo entre a canção e as referências musicais da artista, mantendo no centro a mensagem de humanidade que atravessa a letra. “Arlindo Cruz e seu legado merecem ser celebrados”, resume.
O encerramento chega com Vanessa da Mata e “O Que é o Amor”, composição assinada por Arlindo Cruz, Maurição e Fred Camacho. Produzida por Liminha, a gravação conta com a participação de Kassin, Dedê Silva, Thiago Gomes e Davi Moraes.
A relação entre Vanessa e Liminha já vem de outros trabalhos, incluindo dois discos da cantora produzidos por ele. Essa proximidade contribuiu para uma gravação construída de maneira espontânea, com a troca musical acontecendo diretamente no estúdio. Ao recordar Arlindo, Vanessa destaca a personalidade do sambista: “Ele sempre foi uma pessoa magnética, simpática, querida e muito inteligente.”
A escolha de Liminha: ouvir Arlindo por outras perspectivas
A ideia do projeto partiu de Liminha, diretor artístico ao lado de Boris Farias. A intenção era reunir intérpretes com trajetórias diferentes e permitir que cada uma encontrasse sua própria relação com as canções.
“Por se tratar de um cantautor, imaginei que seria mais interessante, e também diferente para o público, criar um projeto interpretado exclusivamente por mulheres”, explica o produtor.
O desafio, segundo ele, esteve principalmente na escolha do repertório. Com tantas composições importantes disponíveis, selecionar cinco músicas exigiu sensibilidade para identificar quais poderiam ganhar novos contornos na voz de cada artista.
“Talvez o mais difícil tenha sido escolher as músicas dentro de um baú onde só tem coisa boa. A partir daí, entra muito o gosto, a sensibilidade e a intuição para imaginar qual canção pode ganhar uma nova vida na voz de cada artista”, conta Liminha.
A decisão de reunir cinco intérpretes femininas não significa substituir as leituras originais, mas criar novas possibilidades de escuta. Cada gravação carrega a assinatura de quem interpreta, ao mesmo tempo que preserva a força das composições e a relação delas com a trajetória de Arlindo.
Como resume Liminha, “as canções continuam sendo dele, mas passam a existir também através do olhar e da voz dessas artistas”.

Ensaio Agnes Nunes – Simone Kontraluz
“Elas Cantam Arlindo” aposta na permanência de um repertório que segue encontrando espaço em diferentes gerações. Ao reunir artistas da música popular brasileira, da nova MPB e do pop, o álbum mostra como as composições podem atravessar estilos sem perder sua essência.
O projeto também terá continuidade com um documentário inédito sobre a trajetória de Arlindo Cruz, cuja data de estreia ainda será anunciada. A produção deverá ampliar o olhar sobre a história do sambista e sua contribuição para a música brasileira.
Com cinco interpretações e diferentes formas de se aproximar de sua obra, o álbum reafirma a dimensão coletiva da música de Arlindo Cruz: suas canções pertencem à história de quem as criou, mas também continuam encontrando novos sentidos na voz de quem as canta e de quem as escuta.




