Representatividade
Dr. Lucas Diniz une inteligência artificial e medicina para ampliar referências sobre rostos negros
Projeto desenvolvido na USP discute inclusão racial na ciência e propõe novas bases para a análise facial no Brasil
Grande parte dos parâmetros utilizados pela medicina para análises faciais, planejamento cirúrgico e procedimentos reconstrutivos foi construída a partir de estudos realizados majoritariamente com populações brancas. Embora o Brasil possua uma das maiores populações negras do mundo, referências anatômicas específicas para esse grupo ainda são pouco utilizadas na prática médica.
É justamente essa lacuna que o cirurgião plástico facial e pesquisador Dr. Lucas Diniz Costa busca ajudar a preencher.
Doutorando pela Universidade de São Paulo (USP), o médico lidera uma pesquisa que propõe o desenvolvimento de novos parâmetros anatômicos para análise facial da população negra brasileira. O estudo combina inteligência artificial, técnicas de Deep Learning e escaneamento facial tridimensional por meio de sensores LiDAR para mapear características faciais e construir referências mais representativas da diversidade racial do país.
A iniciativa surge em um momento em que diferentes áreas da saúde vêm debatendo a necessidade de ampliar a inclusão racial na produção científica. Em muitos casos, protocolos médicos, equipamentos e bases de dados ainda refletem padrões desenvolvidos a partir de populações que não correspondem à realidade demográfica brasileira.
No campo da cirurgia da face, essa discussão ganha relevância especial. Afinal, a compreensão detalhada das características anatômicas de cada população é fundamental para diagnósticos mais precisos, planejamento cirúrgico personalizado e melhores resultados em procedimentos estéticos e reconstrutivos.
Segundo o pesquisador, a proposta não é criar padrões de beleza, mas desenvolver referências científicas capazes de considerar as especificidades da população negra brasileira, contribuindo para uma medicina mais precisa e representativa.
O trabalho também evidencia como novas tecnologias estão transformando a pesquisa médica. A utilização de inteligência artificial permite analisar grandes volumes de dados anatômicos com níveis de precisão cada vez maiores, enquanto o escaneamento tridimensional oferece uma leitura detalhada das estruturas faciais sem a necessidade de métodos invasivos.
Além do impacto científico, a pesquisa dialoga com uma questão histórica: quem está representado nos estudos que ajudam a definir diagnósticos, tratamentos e intervenções médicas?
Ao propor novas referências para a população negra, o estudo contribui para ampliar a diversidade dos dados utilizados pela medicina e reforça a importância de produzir conhecimento alinhado à realidade brasileira.
O reconhecimento do trabalho de Dr. Lucas Diniz Costa ganhou destaque nesta semana com a divulgação de sua aprovação em primeiro lugar na prova para obtenção do título de Membro Titular da Academia Brasileira de Cirurgia Plástica da Face (ABCPF), uma das certificações mais importantes da especialidade no país.
A conquista reforça uma trajetória que une atuação clínica, pesquisa acadêmica e inovação tecnológica. Em um cenário em que a inteligência artificial passa a ocupar espaço crescente na área da saúde, iniciativas como essa demonstram como a tecnologia também pode ser utilizada para enfrentar desigualdades históricas e ampliar a representatividade dentro da produção científica.
Mais do que uma pesquisa sobre anatomia facial, o trabalho desenvolvido na USP aponta para um debate maior: a necessidade de construir uma ciência capaz de enxergar e compreender a diversidade da população brasileira em toda a sua complexidade.




