17 de março de 2026

Cinema e TV

De Angola à TV brasileira, Licínio Januário transforma herança familiar em força para viver Dumi em ‘A Nobreza do Amor’

Ator angolano usa memórias de uma família marcada pela guerra e pela luta política para construir o chefe da guarda do reino de Batanga

Danilo Castro | 14/03/2026
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- Crédito: TV Globo/Estevam Avellar

De família militar, Licínio Januário compreende bem a complexidade de Dumi, em ‘A Nobreza do Amor’, nova novela das 6 da TV Globo. O ator, de 34 anos, vive o chefe da guarda do Rei Cayman II. É ele quem recebe a missão de liderar a resistência ao governo de Jendal (Lázaro Ramos) na trama.

Em entrevista à Africanize,  o ator explica que muitas das referências aplicadas no personagem são retiradas de histórias reais da própria família. “Minha mãe e meu pai nasceram em período de guerra em Angola”, conta.

“Meu pai foi militar, minha mãe também participou da guerrilha. Eu cresci cercado dessas referências. Meu avô, meu tio-avô. Então, para um personagem com um cargo militar, isso acaba influenciando bastante”, contextualiza.

Créditos: Diodo Andrade

O ator veio ao Brasil para estudar engenharia civil, mas descobriu a capoeira, que o levou para outros meios de arte, como o teatro. Vivendo no Brasil há 16 anos, Licínio participa de sua terceira novela, entre diversos filmes e séries de televisão, além de produções autorais no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia.

O ator conta que vive 14 anos de trabalhos artísticos e celebra a influência da arte em sua vida. “Eu falo muito que a minha arte vem da minha essência. É o lugar onde eu me nutro para fazer tudo o que faço, tanto as minhas produções autorais quanto as produções das quais tenho participado”.

“São 14 anos acompanhando essa construção e também contribuindo com produções autorais, com coletivos pretos, entendendo que essa construção vem muito antes da gente”, completa o ator.

Hoje, em uma novela que coloca a África como centro de uma história de grandeza, Licínio celebra os atores negros brasileiros, com quem tem como referências na televisão e no cinema, como Ruth de Souza, Léa Gárcia, Rubens Barbot, Zezé Motta e Lázaro Ramos.

TV Globo/Estevam Avellar

“São pessoas que tive a oportunidade de ver em cena, que tive a oportunidade de ver como heróis quando ainda morava em Angola, quando ligava a televisão e via alguém que se parecia comigo do outro lado do mundo”, diz.

O ator revela ainda que no campo profissional, se sentiu muito feliz de acompanhar a curva de produções cada vez mais representativas para a população negra, e explica: “Quando vemos a nossa imagem em cena, temos a possibilidade de sonhar, de encarar esses personagens como heróis”, conta.

“Hoje eu estou ocupando esse espaço, com a missão e a responsabilidade de construir imaginário para muitas pessoas. É um espaço muito desejado por nós, de ter essa representatividade preta e africana, de dar nome a esse afro-brasileiro”, complementa.

Licínio Januário também celebra a participação crescente de artistas africanos em produções brasileiras, como a própria novela ‘Nobreza do Amor’. “Eu, como africano nascido no continente, agora me encontro com artistas africanos nesse lugar e celebro essa responsabilidade de realizar um sonho que também é nosso”.

O ator avalia ainda que o folhetim possui força para moldar uma nova era do audiovisual brasileiro. “Eu espero que essa novela amplie essa representatividade. Hoje em dia, com streaming e dublagem, a questão da língua deixou de ser uma barreira. O Brasil é referência no entretenimento em língua portuguesa. Estamos falando de cerca de 400 milhões de pessoas que falam português em vários países”, explica.

“Então existe um mercado enorme que já acompanha as produções brasileiras. E a estética afro-diaspórica ‘A Nobreza do Amor’ tem força para ir além dos países de língua portuguesa”, analisa.

O ator também fala sobre os desafios para viver o personagem. “Eu estou acostumado a trabalhar com narrativas mais densas, mas aqui o personagem tem muitas camadas. Existe também o elemento fabular, que exige outro tipo de entrega. É um lugar desejado, mas também desafiador para nós como atores”, explica.

Para o papel, Licínio conta também que o personagem carrega um volume grande de cenas. “Em outros trabalhos minha participação era mais pontual. Aqui não. O personagem passa por várias fases, várias transformações. Isso gera ansiedade, frio na barriga, mas é um frio na barriga gostoso”, comenta.

Para a construção de Dumi, ele precisou explorar diversos aspectos de povos africanos: “Ele é um general do Reino de Batanga. Construímos esse lugar de forma coletiva, com o olhar e o aval da parte criativa e dos autores. Também tivemos um consultor, que foi muito responsável pelo que vamos trazer em termos de africanidade nesse reino fabular. Ele trouxe muitas referências estéticas que serviram de base para todos nós.”

“Para o meu personagem, há referências dos povos bantu, do antigo Kemet, do povo Mandê, do povo Ashanti, do Benim, do povo iorubá”, explica. “Tivemos acesso a muita informação estética e histórica que nos ajudou a pegar essa narrativa tradicional de novela e juntar com esses elementos para trazer essa africanidade”.

Além disso, o ator conta que estudou a construção política de Angola e de outros países africanos, e que implementou muitos ideais e particularidades para o papel. ”Há referências de líderes políticos, de pessoas que lutaram pela independência de Angola, de Moçambique e de vários países africanos”.

O personagem de Licínio, segundo o ator, carrega uma missão ancestral de ser o braço-direito de Alika (Duda Santos) para que ela volte a ocupar o reino. “Se ele não conseguir cumprir isso, ele sente que estaria envergonhando os ancestrais que ocuparam esse cargo antes dele”, diz. “São muitas referências que ajudam na construção do personagem”.

O ator afirma estar ansioso para a estreia da novela no Brasil e em países africanos, como Angola.  “Estou muito ansioso para a estreia. A gente também assiste junto com o público. Já estamos gravando há algum tempo e queremos ver o resultado, ouvir as críticas construtivas e acompanhar a reação das pessoas”, conta. 

“Também fico pensando muito em como Angola vai receber essa novela. Estamos trazendo algumas palavras em quimbundo e umbundo, com liberdade poética, mas são palavras usadas no cotidiano”, complementa.

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Danilo Castro