Moda
Converse retira campanha após imagens serem associadas à Ku Klux Klan e a linchamentos
Publicidade do Chuck 70 X, estrelada por Karina, do aespa, provocou reação nas redes; marca reconheceu o erro e classificou a imagem como “profundamente perturbadora”
Uma campanha criada para apresentar um novo tênis da Converse acabou no centro de uma discussão sobre racismo, representação e responsabilidade na publicidade. Nos últimos dias, imagens da campanha do Chuck 70 X, estrelada pela cantora sul-coreana Karina, do grupo aespa, passaram a ser criticadas nas redes sociais por usuários que identificaram nelas referências visuais à Ku Klux Klan (KKK) e a cenas históricas de linchamentos de pessoas negras nos Estados Unidos.
A repercussão levou a marca a retirar a imagem de seus canais e a publicar um pedido de desculpas. Em comunicado, a Converse afirmou que compreendia por que a fotografia era “profundamente perturbadora”, reconheceu que “errou” e disse que trabalharia para remover a peça de outros locais onde ela tivesse sido publicada.
Na fotografia que desencadeou a maior parte das críticas, Karina aparece usando uma saia branca diante de um fundo escuro, enquanto uma iluminação em formato de estrela cria um recorte triangular sobre a roupa. A artista segura um par de tênis pretos pelas laterais.
Para diversos usuários das redes sociais, a combinação entre a luz branca, o formato criado sobre a roupa e a posição dos tênis remetia visualmente ao capuz pontudo associado à Ku Klux Klan e, simultaneamente, às pernas de uma pessoa suspensa em uma cena de linchamento.
É importante destacar: não há evidência pública de que a Converse tenha declarado a intenção de fazer qualquer referência à KKK ou a linchamentos. A associação surgiu a partir da interpretação do público diante dos elementos presentes na composição.
E é justamente aí que entra uma discussão maior sobre comunicação.
Quando a imagem comunica mais do que o texto
Na publicidade, quase nada é percebido de maneira isolada. Luz, enquadramento, figurino, posição dos objetos, cores, gestos e contexto trabalham juntos para produzir sentidos.
É o campo da semiótica, área que estuda os processos de significação e a maneira como signos são interpretados culturalmente.
Uma forma geométrica pode ser apenas uma forma geométrica em determinado contexto. Em outro, pode carregar uma memória histórica específica. Um objeto pendurado em uma árvore pode ser apenas parte de uma composição visual para algumas pessoas, enquanto para outras pode acionar imediatamente uma associação com a violência racial praticada nos Estados Unidos.
No caso da campanha da Converse, a combinação de elementos foi justamente o que fez com que parte do público identificasse referências extremamente sensíveis.
Isso não significa que toda interpretação seja automaticamente a intenção de quem produziu uma imagem. Significa que a comunicação não termina no momento em que a fotografia é criada. Ela também acontece quando alguém olha para aquela fotografia e atribui significado a ela.
Uma segunda imagem aumentou a repercussão
A discussão também ganhou força depois que usuários resgataram outra publicidade relacionada à Converse. Na imagem, modelos aparecem diante de uma árvore, utilizando uma escada para alcançar tênis pendurados nos galhos.
A fotografia fazia parte de uma colaboração da Converse com a marca dinamarquesa Palmes, para a coleção Jack Purcell PDM, e não da mesma peça do Chuck 70 X protagonizada por Karina. Ainda assim, sua circulação durante a controvérsia fez com que as duas imagens fossem associadas nas discussões online.
Para críticos, a presença de árvore, escada e calçados suspensos reforçava uma leitura relacionada à violência racial histórica.
Novamente, trata-se da interpretação produzida pelo público diante da composição visual. A Converse não afirmou que essas imagens tinham como objetivo representar linchamentos.
O peso histórico da Ku Klux Klan
A reação não pode ser compreendida sem considerar o peso simbólico da Ku Klux Klan, organização supremacista branca criada nos Estados Unidos no século XIX e historicamente associada à violência contra pessoas negras, além de outros grupos.
O capuz branco e pontudo utilizado pela organização se tornou um dos símbolos visuais mais reconhecíveis do extremismo racial norte-americano.
Já os linchamentos, especialmente durante os períodos de segregação racial nos Estados Unidos, fazem parte de uma história de violência racial que marcou gerações de comunidades negras.
Por isso, para parte do público, determinadas combinações visuais não são percebidas apenas como escolhas estéticas. Elas podem ativar memórias coletivas, símbolos de violência e experiências históricas.
É essa dimensão que torna a discussão sobre repertório tão importante dentro da publicidade.
Onde entra a diversidade?
O episódio também reacendeu uma pergunta que aparece cada vez que uma grande campanha é acusada de reproduzir imagens racistas ou estereotipadas: quem estava na sala quando essa ideia foi criada, fotografada e aprovada?
Uma campanha de grande alcance normalmente passa por diferentes etapas: criação, direção de arte, fotografia, produção, aprovação jurídica, marketing e publicação. Em cada uma delas existem oportunidades para identificar problemas de comunicação antes que o conteúdo chegue ao público.
Ter profissionais com diferentes origens, experiências e repertórios culturais não significa que uma campanha estará automaticamente livre de erros. Mas a presença de perspectivas diversas pode ampliar as possibilidades de questionamento durante o processo criativo.
No caso da Converse, a repercussão nas redes sociais trouxe justamente esse questionamento sobre os filtros pelos quais a imagem passou antes de ser publicada. A empresa, por sua vez, não apresentou publicamente detalhes sobre o processo de aprovação da peça.
O pedido de desculpas da Converse
Depois da repercussão, a Converse retirou a imagem de seus canais e informou que trabalhava para removê-la de outros locais onde havia aparecido. Em seu posicionamento, a marca afirmou:
“Pedimos desculpas. Entendemos por que essa imagem é profundamente perturbadora e reconhecemos que erramos.”
A empresa também declarou que a situação “não deveria ter acontecido” e que faria melhor daqui para frente. A cantora Karina e sua equipe não haviam se manifestado publicamente sobre a controvérsia nas fontes consultadas até a publicação desta matéria.




