22 de setembro de 2026

Cinema e TV

Conceição Evaristo estreia como atriz em filme que abre a 20ª CineBH

Aos 79 anos, escritora mineira protagoniza “Se Eu Fosse Vivo... Vivia”, longa de André Novais Oliveira que inaugura o festival e marca um novo capítulo em sua trajetória artística

Barbara Braga | 22/09/2026
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- Crédito: Divulgação

A literatura foi, durante décadas, o espaço onde Conceição Evaristo transformou memória, experiência e ancestralidade em narrativa. Agora, uma das vozes mais importantes da cultura brasileira leva essa potência para uma nova linguagem. Aos 79 anos, a escritora mineira estreia como atriz no longa-metragem “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, filme de André Novais Oliveira escolhido para abrir a 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte.

A exibição acontece nesta segunda-feira (22) e será acompanhada por uma homenagem à autora, que receberá o Troféu Horizonte, reconhecimento concedido pelo festival a personalidades que marcaram a cultura brasileira e latino-americana.

A estreia de Conceição no cinema acontece em um momento simbólico. Depois de construir uma obra que ajudou a redefinir o lugar da população negra na literatura brasileira contemporânea, a autora agora amplia sua presença artística em uma produção que também tem raízes profundas em Minas Gerais e nas histórias do cotidiano.

Em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, Conceição interpreta Jacira, personagem que acompanha as transformações do tempo ao lado de Gilberto, vivido por Norberto Novais Oliveira.

A narrativa começa nos anos 1970, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, quando o casal se conhece e inicia uma história de amor. Nesta primeira fase, os personagens são interpretados por Tainá Evaristo e Jean Paulo Campos.

Cinquenta anos depois, Jacira e Gilberto reaparecem vivendo a rotina da aposentadoria. Entre conversas, lembranças, pequenos hábitos e cuidados diários, o filme constrói um retrato sensível do envelhecimento, das relações afetivas e da passagem do tempo.

A partir desse cotidiano, o diretor incorpora elementos fantásticos e expande a imaginação sem abandonar aquilo que se tornou uma das marcas de seu cinema: a atenção às experiências comuns que atravessam a vida de milhares de pessoas.

Mais do que uma participação especial, Conceição ocupa um lugar central na narrativa e ajuda a conduzir o núcleo emocional da história.

O encontro entre a escrevivência e o cinema

A presença da escritora no filme aproxima duas trajetórias que compartilham interesses semelhantes.

Ao longo da carreira, Conceição Evaristo consolidou o conceito de escrevivência, termo criado para definir uma escrita que nasce das experiências, da memória e das vivências da população negra. Em seus romances, contos e poemas, personagens negros ocupam o centro da narrativa, revelando histórias frequentemente ignoradas pelas versões oficiais da sociedade brasileira.

Já o cinema de André Novais Oliveira e da produtora Filmes de Plástico, criada em Contagem, é reconhecido justamente por transformar o cotidiano em matéria-prima para narrativas potentes, valorizando relações familiares, afetos e personagens periféricos.

Não por acaso, a escolha de Conceição para integrar o elenco foi vista como um encontro natural entre duas formas de contar histórias.

Segundo Marcelo Miranda, curador de filmes brasileiros da CineBH, a escritora representa um dos pilares da obra.

“Conceição Evaristo é a essência, o ponto nevrálgico e a grande presença de ‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’. Sua participação aproxima dois gestos criativos profundamente ligados a Minas Gerais e, ao mesmo tempo, universalmente compreendidos em sua grandeza.”

Nascida em Belo Horizonte, Conceição Evaristo construiu uma obra fundamental para a literatura contemporânea.

Autora de títulos como “Ponciá Vicêncio”, “Becos da Memória”, “Olhos d’Água” e “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, a escritora projetou nacional e internacionalmente narrativas centradas nas experiências de mulheres negras, nas periferias urbanas, nas relações familiares e na memória coletiva da população negra brasileira.

Sua produção ajudou a abrir caminhos para novas gerações de escritores e escritoras negras, ao mesmo tempo em que ampliou os debates sobre representação, identidade e pertencimento.

Em 2024, sua contribuição para a cultura mineira foi reconhecida com sua eleição para a Academia Mineira de Letras, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na instituição.

Agora, sua chegada ao cinema acrescenta uma nova dimensão a uma trajetória já marcada pela capacidade de atravessar diferentes espaços culturais.

Um filme que chega a Belo Horizonte após circuito internacional

Antes de ser exibido na abertura da CineBH, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” percorreu alguns dos principais festivais de cinema do mundo.

O longa teve estreia mundial na seção Panorama da 76ª Berlinale, realizada em fevereiro deste ano. Em seguida, passou pelo Festival Internacional de Cinema de Cartagena, na Colômbia, pelo Festival Internacional de Cine Independiente de Cosquín, na Argentina, e integrou a competição latino-americana do Festival de Cinema de Lima, no Peru.

A exibição em Belo Horizonte marca a primeira apresentação pública do filme em Minas Gerais, estado que conecta seus principais protagonistas: a escritora, o diretor, a produtora e os próprios cenários da narrativa.

Duas décadas de CineBH

A homenagem a Conceição Evaristo integra a programação da 20ª CineBH, que acontece entre os dias 22 e 27 de setembro com entrada gratuita.

Nesta edição, o festival reúne 102 filmes, sendo 49 longas e 53 curtas-metragens, distribuídos em 69 sessões. As produções representam 18 estados brasileiros e oito países latino-americanos.

Além da escritora mineira, a cineasta paraguaia Paz Encina também será homenageada com o Troféu Horizonte.

A programação inclui ainda produções de destaque do cinema brasileiro contemporâneo e mostras competitivas dedicadas à produção latino-americana, consolidando a CineBH como um dos principais espaços de circulação e reflexão sobre o audiovisual da região.

Quando uma estreia se transforma em símbolo

A estreia de Conceição Evaristo como atriz carrega um significado que vai além do lançamento de um filme. Ao ocupar o centro da narrativa de uma produção exibida em um dos principais festivais de cinema do país, a escritora reafirma a potência de trajetórias negras construídas a partir da arte, da memória e da experiência.

Depois de décadas transformando vivências em literatura, Conceição agora leva sua presença para as telas e amplia um legado que continua atravessando gerações.

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Barbara Braga