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Burkina Faso inaugura primeira refinaria de ouro e busca manter mais riqueza da mineração no país
RAFFINOR-BF começa a operar em Ouagadougou com capacidade inicial de 164 toneladas por ano e pode chegar a 515 toneladas em uma segunda fase
Burkina Faso deu um passo importante para ampliar o controle sobre a própria riqueza mineral. O país inaugurou, em Ouagadougou, sua primeira refinaria nacional de ouro, a RAFFINOR-BF, estrutura criada para levar para dentro do território uma etapa da cadeia produtiva que até então era realizada no exterior.
A mudança pode parecer apenas industrial, mas representa uma transformação importante na maneira como o país pretende lidar com um dos seus recursos naturais mais valiosos.
Burkina Faso é um dos grandes produtores de ouro da África. Durante anos, a lógica esteve concentrada principalmente na extração: o metal era retirado do solo e seguia para fora do país para passar por etapas posteriores de processamento.
Agora, a proposta é diferente. Com a nova refinaria, o país passa a realizar internamente o refino, a transformação e a certificação do ouro, buscando fazer com que uma parcela maior do valor gerado pela atividade permaneça em território burkinabè.
A RAFFINOR-BF foi construída com investimento superior a 11 bilhões de francos CFA e inicia suas atividades com capacidade anunciada de 164 toneladas de ouro por ano.
Em uma segunda fase, a previsão é ampliar a capacidade para 515 toneladas anuais.
A estrutura conta com áreas destinadas ao refino, fundição, análise laboratorial, armazenamento e produção de joias. O processo pode resultar em lingotes com pureza de até 99,99%.
O projeto é financiado principalmente pelo Estado de Burkina Faso, por meio da Société Nationale des Substances Précieuses (SONASP), em parceria com investidores privados.
Mais do que construir uma fábrica, o país está tentando mudar de posição dentro da própria cadeia produtiva.
A diferença está justamente aí: não basta possuir o recurso natural se as etapas que agregam valor ao produto acontecem longe de onde ele foi extraído.
Por que uma refinaria muda a lógica da mineração?
Quando um país exporta uma matéria-prima sem realizar internamente todas as etapas possíveis de processamento, parte do valor econômico associado à transformação daquele produto é gerada em outros mercados.
Com o ouro, isso significa que a riqueza não está apenas na retirada do metal do solo. Existem etapas posteriores envolvendo refino, certificação, transformação, comercialização e fabricação de produtos derivados.
A decisão de Burkina Faso de criar uma estrutura própria busca justamente ampliar sua participação nessas etapas.
Na prática, o ouro continua sendo extraído no país, mas passa a existir também uma infraestrutura nacional para receber o metal e transformá-lo em um produto refinado.
É uma mudança de lógica: da exportação de matéria-prima para uma tentativa de maior participação na cadeia de valor.
O ouro no centro da economia burkinabè
A iniciativa ganha ainda mais importância porque o ouro ocupa uma posição central na economia de Burkina Faso.
O país registrou cerca de 94 toneladas de produção de ouro em 2025, segundo dados oficiais citados pelo governo e por instituições econômicas. Uma parcela significativa desse volume vem também da mineração artesanal, que possui grande peso na atividade aurífera nacional.
O setor foi um dos responsáveis pelo desempenho econômico do país em 2025, em um cenário também influenciado pela valorização internacional do ouro.
Por isso, a construção de uma refinaria nacional está diretamente ligada a uma pergunta econômica fundamental: quanto da riqueza gerada pelos recursos naturais permanece no país produtor?
É justamente essa discussão que a nova estrutura coloca no centro.
Traoré fala em soberania sobre os recursos
Durante a inauguração, o presidente Ibrahim Traoré apresentou a refinaria como parte de uma estratégia de fortalecimento da chamada soberania econômica e mineral de Burkina Faso.
Segundo o governo, a intenção é que o país não se limite a extrair e exportar seus recursos, mas consiga também transformá-los, controlá-los, valorizá-los e certificá-los internamente.
A ambição anunciada vai além do ouro. Traoré também defendeu o desenvolvimento de capacidade nacional para processar outros recursos minerais, como manganês, cobre e zinco. A estratégia, portanto, está inserida em uma discussão maior sobre o papel dos países africanos na exploração de seus próprios recursos naturais.
Um movimento que ultrapassa Burkina Faso
A decisão de Burkina Faso acontece em um momento em que outros países africanos produtores de ouro também discutem como aumentar o controle sobre essa cadeia. Gana, Mali, Guiné e Costa do Marfim, por exemplo, vêm adotando ou anunciando medidas relacionadas ao processamento, comercialização e refino do ouro.
O debate é antigo, mas ganhou novo impulso diante da percepção de que muitos países africanos continuam ocupando principalmente a posição de fornecedores de matérias-primas, enquanto uma parcela maior do valor econômico é criada em outras partes do mundo.
Nesse contexto, construir uma refinaria significa mais do que processar ouro. Significa tentar ocupar mais espaços dentro da própria cadeia produtiva.




