Cinema e TV
Bukassa Kabengele celebra protagonismo africano em ‘Nobreza do Amor’ e reflete sobre travessia entre RD Congo e Brasil
Ator congo-brasileiro fala à Africanize sobre carreira, representatividade e o impacto de ver a África no centro de uma novela da TV Globo
Prestes a estrear em ‘Nobreza do Amor’, próxima novela das 6 da TV Globo, o ator congo-brasileiro Bukassa Kabengele vive um momento de grandeza na televisão. A trama conecta o Brasil ao reino fictício africano de Batanga e também se assemelha à trajetória do artista, que chegou ao país aos 10 anos de idade.

Para a Africanize, o ator celebra o papel, reflete sobre a nobreza africana e comenta o impacto da novela para o grande público. Leia mais abaixo!
Travessia entre África e Brasil
Na trama, Bukassa interpreta Zambi/José, o irmão do rei Cayman II. O personagem, que abdicou do trono para viver uma vida no Brasil, tem na permanência uma similaridade com o ator em suas travessias ao país sul-americano.
“Embora ele carregue por muitos anos essa identidade e essa origem, essa nobreza e essa cultura permanecem nele. Ele tem uma forma muito digna e nobre de entender o mundo, sempre valorizando sua cultura e suas raízes”, conta.
As características também não se diferenciam de Bukassa, que passou por uma trajetória de mudança semelhante à do personagem. “Essa travessia é algo muito próximo da minha própria história. Consigo emprestar um pouco das experiências da minha vida real para a ficção.”
Com raízes na República Democrática do Congo, na África, Bukassa radicou-se no Brasil ainda cedo. “Vim com meu pai, que é uma grande referência intelectual negra no Brasil. Ele veio por questões políticas e acabou construindo aqui sua trajetória”, explica.
Trajetória e sucesso
Ator e cantor, Bukassa construiu sua vida na arte. Participou de novelas como ‘‘Amor Perfeito’’ e ‘‘Mania de ’Você’, além de filmes como ‘‘Malês’’ e ‘‘Pacificados’’l, pelo qual conquistou o prêmio de Melhor Ator no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián. Também pisou em palcos de diversos países em turnês com Marisa Monte e Elba Ramalho.
E se foi no Brasil que compreendeu a estrutura do racismo, como conta, também foi no país que encontrou espaço para trilhar uma trajetória de sucesso na arte.

“Muitas vezes encontro pessoas na rua que dizem o quanto é importante me verem representando personagens com dignidade e respeito. Quando fazemos nosso trabalho com excelência, também estamos trazendo respeitabilidade para o nosso povo.”
O sucesso, claro, não veio da noite para o dia, mas com muitos anos de trabalho. “Durante muito tempo eu fiquei um pouco isolado como ator africano no audiovisual brasileiro. Trabalho na televisão desde 2002, com ‘A Casa das Sete Mulheres’, e naquela época praticamente não existiam atores negros, principalmente homens pretos retintos, ocupando esses espaços”, relembra.
“Eu não consigo separar quem eu sou daquilo que eu faço. Eu sou um homem negro e tenho consciência disso todos os dias”, reflete.
Com a estreia de ‘Nobreza do Amor’, Bukassa torce para encontrar um novo cenário para artistas africanos no Brasil. “A presença ainda é pequena, mas acho muito importante que isso esteja mudando. É muito positivo ver essa abertura para atores africanos dentro do audiovisual brasileiro”, conta.
O ator ainda reflete: “Nós temos atores portugueses brancos trabalhando no Brasil há muito tempo. Por que não ampliar esse diálogo também com artistas africanos que falam português?”, questiona. “Isso fortalece essa conexão da diáspora e amplia as possibilidades de representação.”
Neste lugar, o ativismo se mistura com o trabalho. Bukassa Kabengele conta que contribui para a construção da novela: “Sempre que posso, participo das discussões, contribuo com ideias e questionamentos. Acredito que já conquistei um lugar de respeito para poder contribuir nesse processo”, afirma.
“Quando vejo a possibilidade de participar de uma narrativa positiva sobre a nossa existência, que também traz informação e ajuda na reeducação da população brasileira por meio da arte, levo essas questões comigo para o set”, continua.
O ator também elogia a novela: “Acho que foi muito assertivo e corajoso abordar essa temática dessa maneira responsável e respeitosa. A ficção tem um poder enorme de reconstruir o imaginário social. Trazer esse protagonismo das culturas de origem africana é muito importante, porque ajuda a reconstruir a forma como o negro brasileiro se enxerga e também aquilo que ele acredita que pode sonhar.”
“Também agradeço aos autores por escreverem personagens negros com consciência política, mas sem serem caricatos ou autoritários dentro da trama.”
Impacto do trabalho e reconhecimento do público
Bukassa relata um episódio em que recebeu uma mensagem de um casal afirmando que teria dado ao filho deles o nome do ator. “Foi por causa do meu trabalho. Aquilo me fez pensar muito sobre a responsabilidade que temos como artistas e sobre o impacto que o nosso trabalho pode ter na vida das pessoas”, diz.
O ator celebra ainda o reconhecimento do público: “Muitas vezes encontro pessoas na rua que dizem o quanto é importante me verem representando personagens com dignidade e respeito. Quando fazemos nosso trabalho com excelência, também estamos trazendo respeitabilidade para o nosso povo.”
Apesar disso, o artista conta que sua trajetória, muitas vezes, é uma batalha por afirmação, por transformação e por novos olhares. “O racismo também se reinventa, então precisamos estar atentos”, reflete.
Por fim, destaca a importância do acolhimento do público com artistas africanos: “Sempre que alguém me agradece pelo meu trabalho, isso me fortalece e me lembra que vale a pena continuar lutando e construindo caminhos para que outras pessoas também possam sonhar e ocupar os espaços que desejarem.”




