8 de outubro de 2026

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Ana Elisa denuncia ameaças de morte, estupro e ataques racistas durante campanha

Deputada federal eleita aos 21 anos recebeu mensagens de um homem que se apresentou como supremacista branco; caso é investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais

Barbara Braga | 08/10/2026
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- Crédito: @anaelisast

Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, acaba de conquistar uma das maiores votações para a Câmara dos Deputados em Minas Gerais, mas também carrega uma dimensão menos celebrada da disputa eleitoral: a violência que atravessou sua campanha. A deputada federal eleita pelo PT-MG denunciou ameaças de morte, estupro, ataques racistas e misóginos recebidos durante o período eleitoral. O caso é investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais.

As ameaças chegaram por e-mail em 5 de setembro, aproximadamente um mês antes da votação. Segundo a equipe jurídica da então candidata, o remetente se apresentou como integrante de um grupo supremacista branco, fez referências a organizações racistas e utilizou informações pessoais de Ana Elisa e de familiares para indicar que sabia como localizá-la. A identidade do autor e uma eventual ligação real com qualquer grupo ainda dependem da investigação.

O conteúdo divulgado pela própria Ana Elisa expõe uma violência que não se limita à divergência política. A mensagem atacava diretamente sua condição de mulher negra ocupando um espaço de poder, além de conter ameaças contra sua integridade física e sexual.

É justamente aí que o caso deixa de ser apenas uma história sobre uma candidata ameaçada e passa a revelar um problema maior: quem pode ocupar a política sem ser submetido à tentativa de silenciamento pela violência?

Quando a presença de uma mulher negra vira alvo

Ana Elisa foi eleita no último domingo (4) com 524.219 votos, tornando-se a segunda candidata mais votada para deputada federal em Minas Gerais e a mulher mais jovem eleita para o cargo no estado. Aos 21 anos, ela chega à Câmara depois de construir uma trajetória política fortemente ligada às redes sociais.

Sua ascensão foi rápida. Natural de Divinópolis, estudante de Direito e com milhões de seguidores nas plataformas digitais, Ana Elisa transformou a internet em espaço de comunicação política e diálogo com uma geração que nem sempre se reconhece nos formatos tradicionais de campanha.

O resultado das urnas mostrou a força dessa estratégia. Mas, paralelamente, a visibilidade também a colocou diante de uma forma conhecida de violência política: aquela que tenta transformar a identidade de uma mulher em argumento para questionar seu direito de estar naquele espaço.

No caso de Ana Elisa, raça e gênero aparecem entrelaçados nas ameaças. Não se trata apenas de dizer que uma parlamentar não deveria ocupar determinado cargo. O ataque mira uma mulher negra justamente por exercer a possibilidade de representar outras pessoas e disputar poder institucional.

As ameaças não começaram depois da eleição

Um ponto importante para compreender o caso é que as mensagens foram recebidas antes da votação. Ana Elisa já havia procurado as autoridades durante a campanha, e o episódio voltou a ganhar repercussão após sua eleição e sua entrada nas articulações digitais da campanha presidencial de Lula para o segundo turno.

O caso também não aparece isoladamente no cenário eleitoral mineiro. Durante a campanha, Bella Gonçalves e Andréia de Jesus, também candidatas do PT, denunciaram ameaças de morte e violência sexual. As denúncias apresentavam características semelhantes, incluindo mensagens com ataques direcionados às candidatas e referências a informações pessoais.

Isso não significa, porém, que todas as ameaças tenham sido produzidas pela mesma pessoa ou por uma única organização. Essa eventual conexão é uma questão para as autoridades responsáveis pela investigação.

O que já está documentado é a existência de um ambiente em que mulheres na política são alvo de intimidação que ultrapassa o debate de ideias e chega à ameaça física, sexual e racial.

O segundo turno colocou Ana Elisa novamente no centro

Depois de conquistar mais de 524 mil votos, Ana Elisa passou a ser procurada pela campanha de Lula justamente por sua experiência com comunicação digital. Nesta semana, ela esteve em Brasília para discutir com a equipe do presidente maneiras de ampliar sua presença nas redes durante o segundo turno.

Nesta quinta-feira (8), ela afirmou que voltou a sofrer ameaças de morte e estupro, ataques racistas e misóginos, além de relatar o vazamento de endereço, telefone e documentos pessoais nas redes sociais. Segundo Ana Elisa, o PT disponibilizou escolta para reforçar sua segurança.

A deputada eleita relacionou a nova onda de ataques ao momento político e à sua participação na estratégia digital da campanha presidencial.

Independentemente da motivação específica de cada ataque, o episódio expõe um paradoxo: uma jovem que chegou à política justamente pela comunicação digital agora precisa lidar com o lado mais violento desse mesmo ambiente.

A internet foi ferramenta para ampliar sua voz, alcançar eleitores em diferentes territórios e construir uma candidatura competitiva. Mas também se tornou espaço de exposição, perseguição e disseminação de informações capazes de colocar sua segurança em risco.

Violência política também é uma tentativa de afastar mulheres do poder

O Brasil possui legislação específica para combater a violência política contra a mulher. A Lei nº 14.192/2021 estabelece normas para prevenir, reprimir e combater práticas de violência política motivadas por gênero e prevê punições para condutas que busquem impedir ou dificultar o exercício dos direitos políticos das mulheres.

Quando ameaças de morte, violência sexual, racismo e exposição de dados pessoais aparecem no contexto de uma candidatura, a questão deixa de ser apenas individual. O efeito potencial é coletivo: fazer com que outras mulheres pensem duas vezes antes de ocupar espaços de decisão.

É uma lógica perversa. A mulher entra na disputa para falar sobre políticas públicas, direitos, educação, trabalho, igualdade racial ou qualquer outro tema de interesse da sociedade e, em resposta, pode ser confrontada com ameaças destinadas a atingir seu corpo, sua família e sua própria existência.

No caso de mulheres negras, essa violência ainda se conecta a uma história mais ampla de exclusão dos espaços de poder e à permanência do racismo como mecanismo de desumanização.

Ana Elisa não é apenas uma personagem de uma eleição que terminou. Ela representa uma geração que está encontrando nas redes sociais uma porta de entrada para a política e que, ao mesmo tempo, enfrenta os limites e os perigos desse território.

A investigação precisa avançar

A Polícia Civil de Minas Gerais investiga a autoria das ameaças. Até o momento, não há confirmação pública de identificação ou prisão do responsável. Também não é possível afirmar, a partir da autodeclaração presente na mensagem, que o remetente pertença efetivamente a uma organização supremacista.

Essa distinção é fundamental. Em casos de violência política, a responsabilização precisa caminhar junto com a apuração rigorosa dos fatos.

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Barbara Braga