Política
A corrida começa desigual: candidaturas não brancas recebem menos recursos de campanha
Levantamento da Transparência Brasil mostra desigualdade na distribuição de recursos públicos entre candidaturas e revela como raça e gênero atravessam o financiamento eleitoral
Em uma eleição, estar na urna é apenas uma parte da disputa. Antes de chegar ao voto, uma candidatura precisa conquistar visibilidade, circular pelos territórios, produzir conteúdo, contratar equipes, comunicar suas propostas e alcançar eleitores. Tudo isso exige recursos — e é justamente nesse ponto que um novo levantamento da Transparência Brasil lança luz sobre uma desigualdade que vai além da quantidade de candidaturas.
O boletim “Caixa de Campanha”, criado para acompanhar a distribuição do dinheiro público nas eleições gerais de 2026, mostra que candidaturas não brancas, categoria que reúne pessoas negras, indígenas e amarelas, representam quase metade dos candidatos aos cargos proporcionais, mas receberam uma parcela menor dos recursos públicos destinados às campanhas.
Na primeira edição, baseada em informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibilizadas até 15 de setembro, as candidaturas não brancas correspondiam a 49,8% do total, mas haviam recebido 39,6% dos recursos financeiros públicos. Segundo a Transparência Brasil, isso representa uma diferença de aproximadamente R$ 394 milhões em relação ao que seria distribuído caso os recursos acompanhassem proporcionalmente a presença dessas candidaturas.
O dado não significa, por si só, que os partidos tenham descumprido as regras eleitorais. A legislação estabelece percentuais mínimos de financiamento para determinados grupos, enquanto os partidos mantêm autonomia para definir a distribuição dos recursos dentro dos parâmetros estabelecidos pela Justiça Eleitoral. O que o levantamento mede é outra dimensão: a proporcionalidade entre a presença dos grupos nas candidaturas e a parcela de recursos públicos recebida por eles.
Quando raça e gênero entram na conta
O cenário fica ainda mais revelador quando o financiamento é analisado a partir do cruzamento entre raça e gênero.
Na primeira edição do boletim, os homens não brancos apareceram como o grupo mais subfinanciado. Eles representavam uma parcela das candidaturas maior do que a parcela de recursos públicos recebida e ficaram, segundo o índice utilizado pela Transparência Brasil, 8,6 pontos percentuais abaixo da proporção esperada, o equivalente a cerca de R$ 332,2 milhões.
Entre as mulheres não brancas, a diferença foi de 1,6 ponto percentual abaixo do esperado, correspondente a aproximadamente R$ 61,9 milhões.
Na outra ponta da análise estavam as candidaturas brancas. Homens brancos receberam 5,6 pontos percentuais acima da proporção esperada, enquanto mulheres brancas ficaram 4,6 pontos percentuais acima. Em valores absolutos, isso corresponde a aproximadamente R$ 216,9 milhões e R$ 177,1 milhões, respectivamente.
A leitura proposta pela Transparência Brasil é baseada em um índice de proporcionalidade: quando a participação de um grupo nos recursos públicos acompanha sua participação entre as candidaturas, o resultado se aproxima de zero. Valores negativos indicam uma parcela de recursos menor do que a proporção de candidaturas; valores positivos apontam uma parcela maior.
É uma maneira de observar o financiamento eleitoral por outro ângulo: não apenas quanto dinheiro foi distribuído, mas quem recebeu esse dinheiro em relação ao espaço que ocupa na própria disputa.
Mulheres pardas aparecem em um ponto ainda mais delicado
A segunda edição do Caixa de Campanha, divulgada em 26 de setembro a partir de dados do TSE atualizados até 22 de setembro, aprofundou a análise e trouxe um recorte específico sobre mulheres pardas.
O grupo representa 22,7% da população adulta brasileira, mas corresponde a apenas 12,2% das candidaturas aos cargos de deputado federal, estadual e distrital analisadas pelo levantamento. Entre os recursos públicos, a participação foi ainda menor: 10,5%.
Na comparação feita pela Transparência Brasil, isso representa aproximadamente R$ 67 milhões a menos do que a parcela de recursos correspondente à participação dessas mulheres entre as candidaturas.
O dado evidencia duas dimensões diferentes da desigualdade. De um lado, existe a sub-representação: mulheres pardas aparecem em proporção menor entre as candidaturas do que na população. De outro, entre aquelas que conseguem chegar à disputa, sua participação no dinheiro público é ainda menor.
É justamente nesse cruzamento que a discussão sobre representatividade política ganha outra camada.
O dinheiro público tem regras para ser distribuído
O debate sobre financiamento eleitoral também precisa considerar as regras estabelecidas para as eleições de 2026.
O TSE divulgou, em agosto, os percentuais de candidaturas de mulheres, pessoas negras e indígenas que servem como referência para a destinação dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do Fundo Partidário. A base utilizada pelo tribunal reuniu 20.560 candidaturas: 34,85% eram mulheres, 49,64% eram pessoas negras e 0,93% eram indígenas.
A legislação determina que, para as candidaturas de pessoas negras, a parcela destinada aos recursos do FEFC e do Fundo Partidário não pode ser inferior a 30%. Para candidaturas femininas, o financiamento deve observar a proporção dessas candidaturas, respeitado o mínimo de 30%. Já para candidaturas indígenas, a regra de 2026 estabelece percentuais mínimos relacionados à proporção dessas candidaturas dentro dos recortes de gênero.
A própria regulamentação estabelece que a regularidade da aplicação desses percentuais será verificada na prestação de contas dos partidos.
Isso significa que existe uma diferença importante entre duas perguntas: “o partido cumpriu a regra mínima?” e “o dinheiro foi distribuído de maneira proporcional entre os diferentes grupos de candidatos?”
O Caixa de Campanha está olhando especialmente para a segunda questão.
Representatividade não termina no registro da candidatura
A existência de uma candidatura negra, indígena ou feminina nas estatísticas eleitorais não revela, sozinha, quais são as condições que essa pessoa terá para disputar votos.
Uma campanha pode precisar de produção audiovisual, comunicação digital, deslocamento, material gráfico, equipe, eventos, estrutura jurídica e presença nos territórios. O volume de recursos disponível pode interferir diretamente na capacidade de uma candidatura de tornar sua mensagem conhecida.
Por isso, acompanhar a distribuição do financiamento também significa observar uma etapa anterior ao resultado das urnas: as condições materiais da competição eleitoral.
Essa discussão ganha peso em um país no qual a composição racial e de gênero da população não se reproduz de maneira equivalente nos espaços de representação política. E os números do boletim mostram que a desigualdade pode aparecer não apenas na quantidade de candidaturas, mas também na relação entre quem se candidata e quem recebe os recursos necessários para sustentar uma campanha.
O que os números revelam sobre os partidos
Na análise por legenda, a Transparência Brasil identificou um padrão recorrente de subfinanciamento de homens não brancos entre os partidos analisados. O mesmo fenômeno predominou entre as mulheres não brancas.
Já as mulheres brancas apresentaram índices de proporcionalidade acima de zero na maior parte das legendas observadas, indicando participação nos recursos públicos superior à sua participação proporcional no conjunto das candidaturas. O levantamento registrou exceções, como DC, PDT e REDE, na primeira edição analisada.
A organização ressalta, entretanto, que o índice não deve ser confundido com uma classificação de legalidade das distribuições partidárias. Um grupo pode aparecer proporcionalmente subfinanciado no levantamento sem que isso signifique automaticamente que determinado partido tenha violado uma regra eleitoral.
A distinção é fundamental porque permite discutir a desigualdade estrutural do financiamento sem transformar o dado estatístico, isoladamente, em acusação de irregularidade.
A pergunta que fica para 2026
O financiamento público existe para ajudar a estruturar a competição eleitoral. E, quando o dinheiro é distribuído de maneira desigual em relação à composição das candidaturas, surge uma pergunta que ultrapassa os números:
quem tem condições reais de ser ouvido durante uma eleição?
O levantamento da Transparência Brasil não responde sozinho a essa pergunta, e também não permite antecipar quem será eleito. Mas oferece uma fotografia de uma etapa decisiva da disputa: o acesso aos recursos antes que o eleitor chegue à urna.
Em 2026, enquanto milhares de candidaturas disputam espaço, votos e visibilidade, os dados mostram que raça e gênero continuam atravessando também a dimensão financeira da política.
E olhar para essa distribuição é olhar para uma parte da eleição que muitas vezes permanece distante do debate público: não apenas quem pode se candidatar, mas quem consegue disputar em condições materiais semelhantes.




